Ficou na cama 15 da secção de cirurgia. Entrei no quarto com mais 5 camas além da que ela se sentara ao lado, não era quem procurava.Dizem que tem mais de 80 anos. A senhora no canto da sala com o rosto tapado com o cabelo comprido desbotado e sedoso era-me difícil ver-lhe o rosto.
Mudei de posição na sala, olhei-lhe com olhos curioso e discreto, querendo aprender algo com o seu olhar. Parecia mais nova do que a idade que realmente tinha, mesmo com a pele cansadas das rugas, de olhos tristes submetidos a olhar num ponto fixo do chão.
Tinha a face delicada, não era magra nem gorda.
A minha mente tornou-se num software avançado em que reproduzia gradualmente o rosto dela para quando tinha 23 anos, a beleza que tinha transbordava? Os risos que irradiou ?Que histórias teria ela para contar durante estes últimos 60 anos? A riqueza que transportara no coração? A sabedoria que a vida lhe soube ensinar.
Aquela senhora fez lembrar-me de ti, da falta que me tens feito. Das tuas mãos cheias, do teu rosto sedoso, do teu cheiro do teu cabelo acabadinho de lavar, do teu perfume que pulverizava no teu pescoço.
Foste embora, e o beijo que adiei pensando dar-to no dia a seguir ainda em vida, tristemente deixei-o no teu rosto já frio. Sereno, belo.
No alpendre ficou guardado o teu lugar, o lugar que passávamos as tardes de Junho, tu a dormir e eu com o nariz enfiado nos livros, para os exames finais. Quando a memória te dava tréguas lembravas-me novamente das tuas histórias, eu ouvi-as como se fossem sempre a primeira vez, anotava os teus provérbios, as tuas orações.
Senti paz. Senti-te…
foto by olhares
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