sexta-feira, setembro 29, 2006


Os teus diamantes

Aproximei-me dele, não por minha vontade. Baixei o olhar para o chão gasto e húmido.
Pergunta-me ele: porquê? Respondo, com os olhos salgados de tantas gotas se encherem, que a tinha magoado por conseguinte tinha-se apoderado de mim uma tristeza perdida.
Procurou serenamente o olhar envergonhado que eu tinha escondido, fazendo um gesto delicado, desenhando na nevada barba curta, um terno e doce sorriso. Ergueu o seu cansado braço direito (que o tempo não se esquecera de envelhecer atormentado pelo reumatismo que nos dias mais húmidos do Outono se sentia com mais frequência) levando a sua trémula e pálida mão à minha testa e desta saíu uma força estranhamente suave e agradável, que entrara por entre os meus poros, uma força que me atravessava o corpo e me refrescou, como uma lufada de ar fresco me secasse de tanta tristeza. A sua serenidade e sabedoria fizeram-me leve o coração. O relógio parou, estagnação de todo o espaço. Surpresos, os meus olhos procuraram os seus, e assim, colamos o nosso olhar e estes se misturaram como se de uma onda de cores se suspeita-se.
A lágrima que percorria o meu rosto, alojou-se no meu lábio tremido. Sorriu-me, levantou-se do banco e caminhou para longe até eu o perder de vista, foi embora! Deixou-me sozinha! Agora que precisava da sua mão!
Deixei-me estar, tentando meditar e “rebobinar” na minha mente tudo o que acontecera naquele banco. Notei, então, que a pressão desaparecera e que o peso no meu coração se tinha evaporado.
Sequei lentamente as lágrimas, ergui a cabeça, a paz voltara em mim, apoderei-me da minha força e saltei do banco, respirei bem fundo, senti o sol que me abraçava e aquecia, embebedei-me do vento que me lavava a cara e o cabelo. Caminhei para junto dela e pintei-lhe um sorriso e os seus olhos esboçaram diamantes. Os diamantes que sempre procurei em ti, encontrei-os naquele momento.
Durante aquele dia o seu toque prevaleceu em mim, como ainda hoje eu o consigo sentir…e o teu olhar de diamantes ficaram-me na memória.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Hoje

A viver o meu dia a dia de estudante, desabituada aos zumbidos ruidosos dos carros pela manhã. Dei por mim a presenciar uma agitação necessária para o tempo não parar. O rugir de uma multidão avassaladora assustou -me pela manhã fria, quando penso que antes de te conhecer, Invicta aromatizada de cores e luzes, o meu acordar era outro; tranquilo com o mar a apoiar-se à minha janela e uma brisa quase inexistente trazendo no seu bolso o aroma salgado de uma beleza intocável.
Hoje, assim estou, moça perdida nas ruas da cidade, quando por súbitos instantes, rompe–se a minha agitação matinal, o meu pensamento feérico encontra-se em ti, tentando imaginar por entre a multidão que me contorna, como terá sido hoje o teu acordar e se antes disso, descansaste calmamente.
Entre passos rectos e decisivos até encontrar a meta do meu percurso, entre cruzamento de olhares, passadeiras e semáforos atravessados, crescendo em mim o frenesim e a respiração agitada, penso na tua tranquila manhã. Tento imaginar que fazes esta manhã.
Sou evadida pela tua presença nebulada, então divido-me em ti e em mim.
Na azáfama do fim da tarde, regresso a casa, entreguei as minhas forças ao dia que passou. Por momentos, nas entrelinhas do meu pensamento, imagino que estejas em casa à minha espera e quando chegar, dizes: Olá princesa!…( Implacidez minha!)
Na bruma da noite, eu ligo-te, tu não atendes; tu ligas-me, eu não atendo. Por fim, acabamos por nos encontrar numa troca de vozes, sem temer o silêncio que se aloja por entre as nossas palavras e risos, dizemos que adora-mos um ao outro, escondendo ,por detrás da voz , os olhos humedecidos pela saudade.
Boa noite meu querido.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Vive

Não adianta dizer que vamos ser felizes assim, separados pela distância. E tu, meu amor, sabes bem que não. Eu vou e venho, sou a inconstância no tempo e no espaço, não tenho hora de partida nem hora de chegada. Eu vou para longe e tu ficas…a espera não adianta, não são vidas que queremos para nós.
Guarda os momentos que estivemos juntos, ama-os como eu os vou amar, recordando e fazendo monólogos de ti. Vou lembrar a tua doçura, a tua pele, a tua voz, o teu toque arrepiante, as borboletas que fazias crescer na barriga, o brilho dos teus olhos que me chamavam para te beijar. Quase que te amei, este medo que tenho de te amar, faz com que eu parta sem te dizer…”até já”. Mas confesso, tentaste fazer com que este medo desaparecesse e não foi em vão.
As estrelas são nossas, lembras-te? Fomos nós que lhes demos nome, foram as testemunhas do nosso enamoramento, das conversas, dos nossos silêncios que fazíamos, melodizados pelos grilos que nos cercavam.
Foste a minha loucura, timidez, alegria, o meu ombro, a minha descoberta e minha lágrima, agora, serás uma linda recordação que recordo com ternura.
Guardo tudo o que te pertence, o teu sabor, a tua respiração amena e o teu cheiro singular. Fica meu amor, fica, não lamentes porque vou.
Preciso de ir, como a sereia precisa sempre de voltar ao mar…eu vou, voltarei para um abraço te dar, até lá…vive.

terça-feira, setembro 19, 2006

Viagem

Os meus pés descolaram do teu chão, pela última vez enchergo o teu verde que me enche os pulmões, o azul que me refresca e me banha de sal me acolhendo em meditação. O teu cheiro desperta-me a alma.
Julguei a hora longe de chegar, mas ela fora rápida sem me dar tempo de te abraçar. A hora marcada arrancou-me de ti sem piedade. A distância, determinada por entre sargaços e cetáceos habitantes deste nosso mar, faz-nos assim, esconder, uma da outra, as nossas lágrimas e receios.
A única certeza e consolação que trago é o teu cheiro entranhado numa rocha e a tua voz que não consegue mentir quando dizes “sim”, fazendo-me pensar que estás bem.
Parti e voltei. Preciso partir, viver, abraçar o futuro longe de ti, para voltar em seguida cheia de beijos matando a minha fome de ti. Não posso negar, pertenço-te não consigo fugir por muito tempo.
Agora vou, cheia de ti e da tua tranquilidade, contagiada pelos teus sons, e sombras flutuantes, rendo-me a pensar na minha pequenez. Na bagagem trago o verde e o teu azul que pintaste na minha alma. O rosto que trago na fotografia de hoje está mais envelhecido daquele que eu tinha trazido da última vez que nos despedimos. O teu corpo cada vez mais frágil fazendo-me temer o inevitável.
Cheguei, os meus pés aterraram em ti sem eu dar por mim, como se de um sono tivesse despertado, acolheste-me como eu nunca pensei ser acolhida, sorriste para mim, cantas-te para mim, ofereceste-me a negra capa que sonhei ter, recebi abraços e beijos de ti, fazendo-me entender que tiveste saudades minhas, relembrando-me que a ti já eu pertenço sem saber…Sim! Meu Porto és tu! Sim! Minhas queridas companheiras e amigas são vocês! Fizeram-me passar por um momento único e lindo (que eu tenho que encontrar as palavras para um dia contar).
OBRIGADA

segunda-feira, setembro 18, 2006

Sentimento que, indolor, torna-se ferida no meu peito sem deixar cicatriz visível.
A incapacidade de fazer sair as palavras soltas da minha boca, unindo-as em palavras que solenemente fariam a diferença.
A frofundidade das paredes e das salas em que me recordo, tornam-se frias à minha pele.
A parede que está á minha direita, impede-me de te falar e olhar, com medo de a minha voz ecoar no inquietante corredor, sem te atingir, fazendo crescer em ti a consciência de um comportamento insano de maturidade.
Encontrar-te hoje, tornou ingénua a minha tristeza que em tempos tentei evitar, mas agora, nada me vale.
O chão foge-me dos pés, a fragilidade torna-me suscéptivel ás minhas lágrimas. O incontrolável desejo de ouvir palavras sábias da tua boca, sufoca-me e perco-me então.
Cerram-me os lábios, morrem-me os sentidos, torno-me invisível, esforço-me para rodear-me do verde fresco da tua alma.
Mas mais uma vez incuta-mo-nos a nós mesmos.