segunda-feira, novembro 13, 2006

O sumo da uva que sai das suas castas, é a prova das tuas mãos pintadas do roxo, grandes, gretadas e cheias de sangue rei ardente nas veias, enchendo de amor e dedicação o destino que escolheste.
O grão de cada pedaço de terra, cobre a essência dos teus dias, e o sumo da uva que cuidas torna-se cada ano mais doce.
É na terra da tua vinha que enterras a tua vida anómala, mas mesmo assim o sumo da tua uva é doce.
O teu corpo robusto torna quase escondida a alma frágil que te tornas. A subtileza dos teus gestos é mais forte que a grosseria da tua voz, tornando-a quase subtil.
Os pássaros fogem de ti mas as melgas rodeiam-te, porque sabem que o teu sangue é doce com as uvas que colhes com as mãos cheias. És a pedra sensível que aprendeu a chorar, Árvore que não deixa as suas folhas caírem numa rajada de vento.
Deixas-te sete maçãs verdes encima da mesa, abriste a porta, desces-te as escadas, acenaste-me a mão e lanças-te aquele som tão individual que só tu sabes assobiar que me encantava em ouvir e entraste no teu tão estimado Bedford mais velho que eu, a caminho dos pedaços de terra que te orgulhavas de ver o sustento a crescer.
Sempre que nos voltamos a encontrar, vens contente mostrar as novidades de cada alqueire, de cada estufa que te ajudei a regar no verão. E eu, curiosa a saber de cada planta que me ensinaste a respeitar.
É fim de tarde, vens cansado e contente, preparo-te água quente, massajo-te os pés e adormeces á minha frente, sem meio de me esconder as rugas do teu rosto cansado e queimado do sol, que te tornam cada vez mais terno á medida que elas tornam-se profundas.
Que bom é sentir que tudo em ti eu admiro e adoro, que bom é sentir o que eu sinto, que bom é saber isso.
Espero inquietamente o dia que vou sentir o peso do teu abraço e sentir o calor das tuas mãos quentes.
Sinto a tua falta, falta das tuas resmunguices, das tuas brincadeiras, da tua voz que supera o Pavaroti (em dias de mau tempo) das “novidades” que trazias, ao entrar em casa no teu carrão de 35 anos, de cada pedaço de terra por onde tinhas semeado ou plantado.

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